Bermuda no trabalho? A moda diz sim, mas há um porém
- Renata Bomfim

- há 11 horas
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Talvez uma das imagens mais improváveis do mundo corporativo tenha começado a se tornar comum: homens de bermuda chegando ao escritório. E não estamos falando apenas de empresas de tecnologia, ambientes criativos ou da casual friday. Nas últimas semanas, a discussão ganhou força depois que as altas temperaturas levaram empresas e trabalhadores de cidades como Londres e Tóquio a flexibilizarem ainda mais o que se entende por roupa de trabalho.
Ao mesmo tempo, a moda fez sua parte: a bermuda voltou às passarelas, ganhou versões de alfaiataria e começou a aparecer em produções que, até pouco tempo atrás, seriam construídas com uma calça. A pergunta parece inevitável: se a moda mudou e o trabalho também mudou, por que não usar bermuda no escritório?
A resposta é: talvez você possa, mas há um porém.
A tendência não começou no escritório
A bermuda está vivendo um momento interessante na moda. Comprimentos próximos ao joelho, modelagens mais amplas e principalmente versões de alfaiataria ajudaram a afastar a peça daquela imagem exclusivamente associada à praia, às férias ou ao fim de semana.
Ela aparece com camisa, blazer, mocassim, sapatilha, salto. Ganha tecidos melhores, construção mais estruturada e uma proposta muito mais urbana. Até aqui, nenhuma grande novidade. A moda faz isso o tempo inteiro: tira uma peça de um contexto e coloca em outro.
O interessante começa quando essa mudança encontra outra transformação que já estava acontecendo: a informalização do ambiente profissional: primeiro tiramos a gravata.
Depois flexibilizamos o costume. O jeans entrou em lugares onde antes não entrava. O tênis deixou de causar estranhamento.
Vieram os modelos híbridos de trabalho, os escritórios mais informais e uma relação muito menos rígida com a aparência profissional e agora chegou a vez da bermuda. E talvez seja justamente aqui que a conversa fique mais interessante.
Estar na moda não significa estar adequado
Essa é uma distinção que parece simples, mas que estamos perdendo aos poucos.
Uma peça pode ser atual, bonita, sofisticada e perfeitamente bem coordenada e ainda assim não ser adequada para determinado ambiente, porque dress code nunca foi apenas sobre roupa.
É sobre contexto.
Uma bermuda de alfaiataria impecável usada com camisa e mocassim continua sendo uma bermuda. E isso não é um problema em si. A pergunta é outra: o ambiente em que você trabalha comporta essa mensagem?
Uma agência de publicidade, um escritório de arquitetura e um banco de investimentos podem ter respostas completamente diferentes (e todas podem estar certas).
O erro é transformar tendência em autorização
É aqui que vejo um risco interessante nessa discussão. Quando uma tendência ganha força, começamos rapidamente a tratá-la como uma espécie de autorização coletiva. “Agora pode.”
Mas quem exatamente, afinal, decidiu que pode? A passarela? O Instagram? Uma celebridade?Uma empresa em Londres?
O fato de uma peça estar sendo incorporada ao guarda-roupa profissional não elimina as diferenças entre profissões, empresas, cargos, situações e públicos. Imagine uma profissional usando uma bermuda de alfaiataria para trabalhar normalmente no escritório.
Agora coloque essa mesma profissional diante de um cliente extremamente conservador. Depois, em uma reunião de diretoria. Depois, apresentando uma proposta comercial importante.
A roupa não mudou. O contexto mudou completamente.
É por isso que discutir imagem profissional apenas em termos de “pode ou não pode” empobrece muito a conversa.
Talvez o dress code não esteja desaparecendo
Tenho a impressão de que estamos interpretando a flexibilização dos códigos de vestimenta como o fim deles, mas não é. O que aconteceu foi algo mais complicado: o código deixou de vir pronto.
Durante muito tempo, havia fórmulas relativamente claras: terno significava formalidade. Jeans significava casualidade. Tênis era esportivo. Bermuda era lazer. Hoje essas fronteiras se misturaram.
Você pode encontrar um tênis em uma reunião executiva, jeans em empresas tradicionais e alfaiataria no fim de semana. Isso nos deu mais liberdade. Mas liberdade exige mais leitura de contexto, não menos. Talvez por isso tanta gente diga atualmente que não sabe mais o que vestir para trabalhar.
Então, dá para usar bermuda no trabalho?
Em alguns ambientes, sim. Especialmente quando falamos de uma bermuda com comprimento mais próximo ao joelho, boa modelagem, tecido estruturado e uma composição coerente com o restante da imagem profissional.
Mas eu faria algumas perguntas antes de olhar para a tendência:
Qual é a cultura da empresa?
Qual é a minha função?
Com quem vou me encontrar hoje?
Que nível de formalidade a situação exige?
E, principalmente, o que minha imagem precisa comunicar?
Perceba que nenhuma dessas perguntas começa com: “Está na moda?” E talvez esse seja justamente o porém que essa tendência nos ajuda a enxergar. A bermuda pode, sim, chegar ao escritório, mas a tendência não elimina o contexto.
E quanto mais flexível fica a forma como nos vestimos para trabalhar, mais importante se torna saber interpretar o ambiente. Porque talvez o novo dress code não seja uma lista dizendo o que pode e o que não pode. Talvez seja algo mais sofisticado: saber fazer a escolha certa quando quase tudo parece permitido.