Excesso de perfume: onde termina o gosto pessoal e começa o espaço do outro?
- Renata Bomfim

- há 2 dias
- 4 min de leitura

Você provavelmente já viu essa cena nas redes sociais: a pessoa termina de se arrumar, pega o perfume e começa uma borrifada no pescoço, outra no colo, nos punhos, na roupa, atrás da cabeça e, para finalizar, algumas no ar. Às vezes são dez, quinze, vinte borrifadas. O famoso “banho de perfume”.
Na internet, a cena ganhou certa naturalidade. Faz parte de vídeos de “arrume-se comigo”, rotinas de beleza, conteúdos de moda e indicações de fragrâncias. Quanto mais borrifadas, maior parece ser a sensação de estar muito perfumada. Assistimos tantas vezes que o exagero começa a parecer normal.
Mas existe uma diferença importante entre assistir a alguém passar perfume pela tela do celular e dividir uma sala fechada com essa pessoa durante oito horas, cinco dias da semana. E é aí que uma questão aparentemente banal começa a falar sobre imagem, postura e comportamento.
Quando o excesso de perfume vira referência
As redes sociais mudaram muitas das nossas referências de consumo e comportamento.
Vemos alguém aplicando uma quantidade enorme de produto e, sem perceber, aquilo começa a estabelecer uma nova medida do que é “normal”. O problema é que a câmera não transmite cheiro.
Quem assiste ao vídeo vê o gesto, o frasco, a estética, a experiência. Não sente a intensidade daquela fragrância. Na vida real, sente.
E talvez esteja aí uma diferença que precisamos considerar quando transportamos comportamentos das redes para o cotidiano: nem tudo aquilo que funciona diante de uma câmera funciona quando existe outra pessoa dividindo o mesmo espaço conosco. O perfume é um ótimo exemplo disso.
O escritório já tem cheiro
Pense em um ambiente de trabalho fechado: ar condicionado, pessoas próximas, café, produtos de cabelo, hidratantes, produtos de limpeza. Comida chegando na hora do almoço. E, no meio de tudo isso, diferentes perfumes. São muitos estímulos convivendo no mesmo espaço.
Quando alguém chega depois de um verdadeiro banho de perfume, aquela fragrância não fica restrita ao próprio corpo. Ela passa a fazer parte do ambiente. Às vezes, domina o elevador. Entra na sala de reunião. Permanece no corredor. Chega até quem está algumas mesas adiante.
E aqui surge uma questão importante: em que momento uma escolha pessoal deixa de ser apenas pessoal? Você escolheu o perfume. As pessoas ao seu redor não escolheram senti-lo durante horas.
Perfume também é uma questão de postura
Quando falamos sobre imagem profissional, normalmente pensamos primeiro no que é visível:
roupa, cabelo, maquiagem, acessórios, postura corporal. Mas a nossa presença é percebida por muito mais do que aquilo que os olhos conseguem enxergar.
O volume da nossa voz interfere no ambiente. A maneira como interrompemos alguém interfere.
A proximidade física interfere. Nosso comportamento interfere. E o nosso cheiro também.
Por isso, usar perfume no ambiente de trabalho não deveria ser uma discussão sobre “pode ou não pode”. É muito mais interessante pensar em adequação.
Uma fragrância agradável pode fazer parte da identidade de alguém. O excesso, por outro lado, pode transformar algo que deveria ser percebido na proximidade em algo que se impõe a todo o ambiente. E existe uma diferença enorme entre ser percebido e se impor.
Esses dias, eu me vi em uma situação incômoda na academia, o motivo? Perfume. Eu estava no meu treino de corrida na esteira e, ao lado, uma pessoa iniciava o treino dela enquanto aguarda seu personal trainer. O que era o início da atividade física para ela, para mim era o fim, isso porque quando o profissional chegou, além de ocupar o espaço que eu usava da esteira, estava com perfume tão forte que me fez terminar minha corrida antes da hora.
Agora, se eu não aguentei finalizar meu treino por conta do perfume, imagina quem estava começando? É preciso adequar o cheiro ao ambiente, ao trabalho e ao horário. Um espaço de prática esportiva pede um perfume leve, refrescante que não invada o espaço do outro.
Pra mim, como profissional de imagem, o excesso de perfume me causa incômodo e, como nossa imagem fala antes mesmo de abrirmos a boca, esse profissional me disse muito, principalmente o que não usar em atendimento de trabalho.
Nem toda presença precisa se constrói com excesso de perfume
Talvez as redes também tenham reforçado uma ideia de que perfume bom é aquele que “projeta”, “exala”, “deixa rastro” e faz alguém perguntar qual fragrância você está usando. E não há necessariamente um problema nisso. O contexto é que muda tudo.
Em um evento, em um jantar ou em determinadas situações sociais, podemos desejar uma presença olfativa mais marcante. No escritório, especialmente em ambientes fechados e compartilhados, talvez a medida precise ser outra, porque elegância também envolve leitura de ambiente.
É entender que o perfume que você ama pode incomodar outra pessoa. Que aquilo que para você já parece quase imperceptível pode estar bastante presente para quem está ao lado.
Não significa deixar de usar. Significa ajustar.
O excesso também comunica
Essa talvez seja a parte mais interessante quando pensamos em imagem. Tudo aquilo que fazemos repetidamente comunica alguma coisa sobre nós, inclusive a nossa capacidade de perceber o outro.
Uma pessoa pode estar impecavelmente vestida, com uma imagem profissional coerente, boa postura e excelente comunicação. Mas, se sua presença invade sensorialmente o ambiente, existe ali um pequeno ruído, porque imagem não é apenas aquilo que escolhemos mostrar. É também a experiência que proporcionamos a quem convive conosco. E isso muda bastante a maneira de pensar sobre elegância.
Talvez etiqueta seja justamente isso
Durante muito tempo, etiqueta foi associada a regras: como sentar, como comer, como cumprimentar, qual roupa vestir. Hoje, talvez faça mais sentido entendê-la como consciência de convivência.
Perceber que não estamos sozinhos, que nossas escolhas ocupam espaço, que existe uma diferença entre expressar nossa personalidade e exigir que todo mundo ao redor participe dela.
O perfume é apenas um exemplo muito cotidiano disso.
Talvez você adore uma fragrância intensa. Talvez aquele “banho de perfume” que vemos nas redes seja até prazeroso antes de sair de casa. Mas antes das dez, quinze ou vinte borrifadas, especialmente para passar o dia em um ambiente fechado, existe uma pergunta simples que vale fazer: esse perfume precisa ser sentido por mim ou por todo mundo que entrar na sala?
Não se trata de diminuir presença. Trata-se de refiná-la.